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Desafio no século XXI é a epidemia de doenças crónicas por comportamentos alimentares

Desafio no século XXI é a epidemia de doenças crónicas por comportamentos alimentares
12 de Fevereiro de 2018

Alimentação e saúde pública andam a par, e esta aliança tem sido o princípio que guia a carreira de Alexandra Bento, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, a cumprir o seu segundo mandato no cargo. Alexandra Bento teve, aliás, papel fundamental na criação de uma ordem desta classe profissional, que ajudou a estabelecer, até à sua constituição, a 1 de janeiro de 2011. Professora convidada da Universidade Católica Portuguesa (Centro Regional do Porto) e Assessora Superior de Nutrição na ARS do Norte, licenciou-se e doutorou-se na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, com uma tese na área das Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição. Defende, hoje, mais campanhas de sensibilização dos portugueses para uma alimentação adequada e a fusão dos esforços das autoridades de saúde pública nesse sentido: “Para se poder alcançar esta visão global da saúde pública é fundamental envolver o trabalho integrado de vários profissionais. Aqui, os nutricionistas e os farmacêuticos desempenharão um papel determinante”.



A nutrição parece ser um dos grandes temas da saúde pública no século XXI. Porquê?

Nos últimos anos assistimos a uma transição epidemiológica segundo a qual a evolução da sociedade foi acompanhada pela redução da morbilidade e mortalidade por doenças infeciosas, passando a haver um predomínio das doenças crónicas, de causas multifatoriais. E, de facto, um dos principais desafios da saúde pública do século XXI é a epidemia das doenças crónicas resultantes dos comportamentos alimentares e dos estilos de vida dos indivíduos. A alimentação é um dos fatores de risco modificáveis que mais contribui para o desenvolvimento de doenças crónicas, como é o caso das doenças cardiovasculares, do cancro, da diabetes e da obesidade. Esta, além de ser uma doença crónica, tem impacto naquelas outras doenças, pelo que é considerada a pandemia do século XXI.



Portugal acompanha a tendência...

Em 2015, os hábitos alimentares inadequados continuaram a ser o maior determinante para o total de anos de vida saudável perdidos pela população portuguesa. A título de exemplo, em Portugal ingere-se mais do dobro do sal recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo que a ingestão excessiva de sal é considerada o risco alimentar evitável que mais contribui para a perda de anos de vida saudável, estimando-se em mais de 77 mil os anos de vida potencialmente perdidos pela população portuguesa em 2015. Assim, a nutrição é um dos grandes temas de saúde pública do seculo XXI, pelo seu impacto na diminuição do risco de doenças que têm um elevado impacto na morbilidade e mortalidade da população, causando elevada pressão nos sistemas de saúde.



Que desafios se apresentam, então, para as autoridades de saúde, nesta área?

O desafio que se coloca assenta no desenvolvimento de políticas de saúde promotoras de uma alimentação saudável, com base num conjunto coordenado de ações, com o objetivo de capacitar os cidadãos para uma melhor alimentação. Estas políticas devem garantir o direito da população a uma alimentação adequada e devem ter uma abordagem interministerial e intersetorial, com o envolvimento do Estado, da sociedade civil e de todos os stakeholders na área da nutrição.



E no nosso caso concreto?

A OMS tem alertado os países para a urgência de atuarem nesta situação, preocupação plasmada em vários documentos, como o European Food and Nutrition Action Plan 2015-2020 ou o Global Action Plan for Prevention and Control of Noncommunicable Diseases 2013-2020. Portugal respondeu com a recente Estratégia Integrada para a Promoção da Alimentação Saudável, publicada em 29 de dezembro último. Os atuais indicadores de saúde pública, nomeadamente os anos de vida saudável perdidos e a elevada prevalência de doenças crónicas são preocupantes, pelo que a Ordem dos Nutricionistas, no domínio das suas atribuições, continuará empenhada para que se reverta essa situação, pois é a qualidade de vida dos portugueses que se perde devido a causas evitáveis.



A saúde e a alimentação andam lado a lado...

Não pode haver políticas de saúde pública sem apostar verdadeiramente na promoção da alimentação saudável. E nesse aspeto os nutricionistas serão certamente os verdadeiros aliados, dotados de competências específicas capazes de responder aos principais desafios da saúde atual: as doenças crónicas relacionadas com uma má alimentação.



Podemos dizer que nutrição é igual a prevenção?

A correta alimentação representa a melhor forma de prevenir as grandes causas de mortalidade da atualidade. Mas nutrição não significa só prevenção, também pode significar tratamento. A terapia nutricional é basilar no tratamento de inúmeras doenças, como é o caso da obesidade e da diabetes, e por isso a presença de um nutricionista nas equipas multidisciplinares de tratamento destas doenças tem um papel fundamental. O plano nutricional deve ser integrado num plano personalizado de gestão da doença. Existe forte evidência que sustenta o benefício da intervenção nutricional e da mudança dos estilos de vida para prevenir ou tratar vários tipos de doença. Assim, a Ordem dos Nutricionistas tem alertado o Governo para a necessidade de incrementar o número de nutricionistas no Serviço Nacional de Saúde, não só nos cuidados de saúde primários, como também nos restantes níveis de cuidados.



Em algumas zonas do globo, a percentagem de obesos é maior, de uma forma aparentemente insólita, em países em desenvolvimento. A FAO divulgou um comunicado no início deste século a falar de uma pandemia de obesidade, e a chamar a atenção para o facto de, em alguns países, se ter passado diretamente “do sorgo ao McDonalds”. Sendo a falta de rendimentos das pessoas algo generalizado, e sendo a “junk food” barata, como se pode reverter esta situação?

A baixa escolaridade e a reduzida disponibilidade económica parecem ser fatores que conduzem a escolhas alimentares desadequadas, nomeadamente devido à parca literacia alimentar e ao baixo custo de vários alimentos ricos em açúcar, sal e gordura. Se uma família não tem acesso regular e permanente à alimentação, em quantidade e qualidade adequadas, poderá encontrar-se em situação de insegurança alimentar. Por outro lado, tem sido descrita uma associação entre esta insegurança e as doenças crónicas, como a obesidade e a diabetes, o que parece um paradoxo. Para reverter a situação será necessário o empenho de todos os agentes da sociedade, de forma a tornar mais acessíveis, económica e fisicamente, os alimentos saudáveis.



Sendo a nutrição aspeto fundamental da saúde pública, de que modo se podem “aliar” as Ordens dos Nutricionistas e dos Farmacêuticos para cruzar o know-how dos dois campos?

A multidisciplinaridade das equipas é fundamental para o sucesso de qualquer política de saúde, desde logo, com a presença das áreas da nutrição e da farmácia, visto que os conhecimentos de ambos os profissionais se complementam. Segundo Donald Acheson (1988), a saúde pública é “a ciência e a arte de prevenir a doença, prolongar a vida e promover a saúde por meio de esforços organizados da sociedade”. Para a concretizar é importante, pois, integrar e articular os vários saberes. Ou seja, para se poder alcançar esta visão global da saúde pública é fundamental envolver o trabalho integrado de vários profissionais de saúde. Aqui, os nutricionistas e os farmacêuticos desempenharão um papel determinante.



As Ordens têm uma comunicação frequente entre si? Se não, o que falta fazer nesse sentido?

A Ordem dos Nutricionistas e a Ordem dos Farmacêuticos têm uma excelente comunicação, quer pela aproximação de pensamento, quer pela relação pessoal com elementos de vários órgãos. Esta relação verificou-se no passado e verifica-se no presente com a atual Bastonária, a Prof.ª Doutora Ana Paula Martins.



Outra interdependência desta área é com as políticas de saúde, cada vez mais atentas aos excessos.

Reconhecida a necessidade de atuar sobre os desafios colocados pelo cenário atual de doença, os países europeus comprometeram-se a atuar através de políticas alimentares para a prevenção das doenças crónicas associadas à alimentação. Com a adoção do European Food and Nutrition Action Plan 2015-2020, tornou-se claro o compromisso de desenvolver ambientes alimentares mais saudáveis através de uma ação concertada que permita tornar mais acessíveis os alimentos mais saudáveis.



A taxação das bebidas açucaradas, por exemplo, é uma boa medida preventiva?

A utilização de medidas económicas, como a taxação e subsidiação de alimentos, é considerada uma ferramenta possível de promoção da alimentação saudável de forma a guiar a escolha do consumidor, considerando que o preço dos alimentos é um dos fatores com maior influência na escolha alimentar. O impacto da taxação ou subsidiação nos alimentos deve ser analisado do ponto de vista económico, tendo em consideração os ganhos em saúde, a poupança nos custos do serviço de saúde, e a redução das desigualdades sociais. Em Portugal, a taxação das bebidas açucaradas, em vigor desde 2017, parece dar indícios de resultados positivos, como a reformulação dos produtos pela Indústria dos refrigerantes, a redução de 20 a 25% no consumo das bebidas com maior teor de açúcar e a redução de 4250 toneladas de açúcar face a 2016.



Por outro lado, como vê o “chumbo”, na Assembleia da República, de uma tributação adicional ao sal?

A Ordem dos Nutricionistas, tal como foi tornado público, lamenta a não aprovação do imposto sobre os produtos com elevado teor de sal, conforme o Governo havia proposto no Orçamento do Estado para 2018. Esta medida teria um impacto positivo na saúde dos portugueses. Segundo a Direção-Geral da Saúde, os portugueses consomem o dobro da quantidade de sal recomendada pela OMS, que aponta para cinco gramas diários por pessoa. A medida estava bem fundamentada e seguia as recomendações das autoridades de saúde para estimular a indústria alimentar a reformular os seus produtos, de forma a oferecer menor teor de sal ao consumidor. Mas as autoridades de saúde não devem desistir de reduzir o consumo de sal. Agora importa que promovam acordos voluntários com a indústria para reformulação dos seus produtos e se sensibilize a população para a redução do consumo de sal.



Os hábitos alimentares dos portugueses são hoje melhores, depois de todas as campanhas de sensibilização e medidas adicionais que têm sido adotadas ao longo dos últimos anos?

Os hábitos alimentares dos portugueses parecem estar a afastar-se de um padrão alimentar saudável, como se confirma através dos dados de disponibilidade alimentar (Balanças Alimentares) e de consumo alimentar (Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física). Constata-se, na verdade, que é imperioso avançar no sentido de permitir a adequação do comportamento alimentar da nossa população. A última grande campanha nacional de educação alimentar decorreu na década de 80, recebendo o nome de Saber Comer é Saber Viver, e foi coordenada por Emílio Peres. A campanha envolveu um conjunto significativo de agentes e de atividades: foi desenvolvida a Roda dos Alimentos (logo em 1977), realizados programas de rádio, publicados artigos na imprensa regional e nacional, e lançados um livro sobre alimentação e a Cartilha da Alimentação. É imperioso a existência de uma nova campanha de educação alimentar nacional para promover o aumento da literacia nesta matéria, de forma a conduzir a uma efetiva mudança de comportamentos.



Há alguma faixa etária que represente maior risco de obesidade, ou de adquirir, no futuro, doenças autoimunes ou endocrinológicas, na população portuguesa?

As crianças são sempre a melhor aposta. Dados atuais indicam-nos que 25% das crianças e 32,3% dos adolescentes têm excesso de peso ou obesidade. É importante que a prática de uma alimentação saudável ocorra o mais cedo possível, uma vez que os hábitos alimentares adquiridos durante a infância se refletem na idade adulta. A educação alimentar durante a infância assume um papel fundamental na promoção de hábitos alimentares saudáveis. A escola apresenta-se, assim, como um local privilegiado para aquisição de conhecimentos e competências que permitem a adoção de hábitos alimentares saudáveis.



Que medidas/campanhas prevê a Ordem dos Nutricionistas para o futuro próximo?

A Ordem tem de continuar a ser uma instituição com visão de futuro e com capacidade de influência e intervenção verdadeiramente consequentes junto da sociedade e dos órgãos de poder, promovendo a excelência do exercício profissional como garantia do direito dos cidadãos à alimentação saudável.




Ricardo Nabais, jornalista convidado

Fonte: ROF | Revista da Ordem dos Farmacêuticos, págs. 37-40, Edição Out-Dez 2017,