Para fins de melhorar a sua experiência, este site usa atualmente cookies. Eu Compreendo
Página Inicial
<   ABRIL 2019   >
SEG TER QUA QUI SEX SAB DOM
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30 1 2 3 4 5

Uma dieta saudável, para nós e para o planeta - as sugestões da bastonária dos nutricionistas

Uma dieta saudável, para nós e para o planeta - as sugestões da bastonária dos nutricionistas
11 de Fevereiro de 2019

Em janeiro a conceituada revista científica Lancet publicou as conclusões de um relatório resultante da investigação de 37 especialistas de 16 países que, durante três anos, trabalharam para elaborar um modelo de dieta sustentável para o ser humano e para o planeta. Nós pedimos à bastonária da Ordem dos Nutricionistas que elaborasse uma ementa semanal, à luz dessas recomendações. Alexandra Bento aceitou o desafio e ainda nos deu uma entrevista. Agora só falta que a «Dieta do Antropoceno» se torne uma tendência.




Esquema alimentar semanal exemplificativo para um indivíduo adulto saudável com necessidades energéticas de 2000 a 2500 Kcal/dia, com base nas recomendações do relatório Food in the Anthropocene: the EAT–Lancet Commission on healthy diets sustainable food systems, da The Lancet Commission, publicado em janeiro de 2019. As quantidades de ingredientes apresentadas referem-se às quantidades por pessoa e por refeição.



O homem está a esgotar os recursos do planeta (já todos, menos o presidente dos Estados Unidos, percebemos isso). E há quem no mundo esteja a pensar sobre isso. Como a EAT, uma comissão composta por 37 especialistas de 16 países, de áreas tão diferentes como saúde, nutrição, sustentabilidade ambiental, sistemas alimentares, economia e governança política, que elaborou um relatórios divulgado no artigo Food in the Anthropocene: the EAT–Lancet Commission on healthy diets sustainable food systems, da revista científica Lancet.


Uma das conclusões é que o planeta não terá capacidade de alimentar tantas pessoas sem uma transformação dos hábitos alimentares, uma melhoria na produção e uma redução do desperdício.


A mudança para um consumo de alimentos mais saudáveis evitaria a morte prematura de 11 milhões de pessoas em cada ano, reduzindo a morte de adultos entre 19% e 23,6%.


Como pode ler-se neste artigo do DN, de acordo com os especialistas, uma dieta-padrão saudável e planetária consistirá em aproximadamente 35% das calorias provenientes de grãos integrais e tubérculos, em ter nas plantas a principal origem da proteína (incluindo-se apenas cerca de 14 gramas de carne vermelha por dia), e no consumo de 500 gramas de vegetais e frutas por dia.


Esta mudança nos hábitos alimentares — «urgentemente necessária» já que mais de três mil milhões de pessoas sofrem de desnutrição e a produção de alimentos está a exceder a capacidade do planeta, impulsionando as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e o aumento da poluição pelo uso excessivo de fertilizantes — implicaria a diminuição em 50% do consumo de carne vermelha e açúcar e um aumento de 50% de consumo de frutos secos, verduras, legumes e fruta e garantiria um sistema alimentar mundial que não poria em causa os limites do planeta na produção de alimentos, tendo em conta, por exemplo, as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, o uso da terra e da água e o ciclo dos nutrientes.



Este foi o mote para a conversa com Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, a quem pedimos que elaborasse uma ementa semanal de acordo com estes princípios [ver infografia acima]




Segundo este relatório, uma má alimentação comporta maior risco de morbilidade e mortalidade do que o consumo de drogas, álcool, tabaco e sexo não protegido juntos. Porquê?
Efetivamente, existe uma relação direta entre os hábitos alimentares inadequados e o estado de saúde da população, nomeadamente no que respeita às doenças crónicas (obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e cancro). O estado nutricional dos portugueses é disso reflexo, de acordo com os resultados do último Inquérito Alimentar Nacional (2016), que revelam que a prevalência de obesidade é de 22,3% (superior no sexo feminino e nos indivíduos idosos) e a prevalência de pré-obesidade é de 34,8%, o que significa que mais de metade da população portuguesa (57,1%) tem excesso de peso. Por outro lado, cerca de 10,1% da população encontrar-se-á em situação de insegurança alimentar. Vemos inclusive, um crescendo da prevalência de diabetes que se situa nos 13,3% e 36% da população portuguesa é hipertensa. Assim, dados da OCDE indicam-nos que em Portugal os hábitos alimentares inadequados são o fator de risco que mais contribui para o número de anos de vida saudável perdidos pelos portugueses (15,8%). Em particular, o excesso de consumo de sal estima-se ser o risco alimentar evitável que mais contribui para a perda de anos de vida saudável.



De acordo com o relatório da comissão EAT/Lancet, o açúcar e as carnes vermelhas são o inimigo a abater. Como reduzi-los para níveis saudáveis, quando são quase omnipresentes nas nossas dietas?
Em primeiro lugar é ganhando consciência dos seus malefícios e isso começa com uma apurada investigação científica. Havendo evidência científica, os investigadores e profissionais de saúde têm que sensibilizar a população em geral para isso. Este relatório vem muito em linha com aquilo que são as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).



Quais são?
Que o consumo do açúcar não deve ser superior a 10% do valor energético total, apontando mesmo para os 5% nas últimas recomendações. O que quer isto dizer, contas feitas? 25 g de açúcar, por pessoa, por dia, no máximo. Quanto ao consumo de carnes vermelhas (vaca, porco, cabrito…), aconselha-se, por precaução, que este seja reduzido para valores até 500 g por semana. Porquê? Porque o consumo diário de 50 g de carne processada está associado a um aumento de 18% no risco de cancro do cólon, que é de 17% com o consumo diário de 100 g de carne vermelha.



E estas mudanças fazem-se apenas mobilizando a vontade individual ou implicam medidas governamentais ou legislativas?
É claro que o Estado deve providenciar medidas que sejam facilitadoras das escolhas alimentares saudáveis e sustentáveis das pessoas. Há um conjunto de medidas neste domínio que são consideradas de sucesso, como, por exemplo, a taxação de alimentos sobrecarregados de açúcar ou sal ou a alteração de oferta alimentar em espaços essenciais, como as escolas. E quem fala em taxar alimentos com excesso de sal ou açúcar também pode falar em subsidiar alimentos cujo consumo seja insuficiente, mas fundamental para a saúde, como é o caso da fruta e dos hortícolas. Ou seja, o governo de cada país deve conhecer a situação alimentar do mesmo e perceber o que deve alterar para ter um sistema alimentar adequado para a sua população, traçando um conjunto de medidas que têm que ser articuladas entre os vários ministérios e com os diversos setores de atividade, desde a indústria alimentar às empresas de distribuição e à restauração. Discutiu-se ontem na Assembleia da República uma lei de bases para o direito humano a uma alimentação adequada. Seria importante obrigar o Estado a concretizar o direito de todos os cidadãos a uma alimentação adequada.



Comem de forma adequada, os portugueses?
Está visto que não. Temos dados recentes e de qualidade, nomeadamente do recente Inquérito Alimentar Nacional, mas também das balanças alimentares, que nos permitem ver que os hábitos alimentares dos portugueses ao longo das últimas décadas têm vindo a mudar de uma forma nefasta para a nossa saúde. Esta transição nutricional tem levado a um aumento de doenças crónicas não transmissíveis como a diabetes, o cancro, as doenças cardiovasculares. Estas doenças têm que ver com o facto de comermos pouca fruta, poucos hortícolas, poucas leguminosas e muita gordura, sal a mais e açúcar a mais.



A que se deveu essa mudança alimentar?
O que os estudos nos dizem é que é comum isto acontecer num país que melhora as suas condições económicas e sociais e aposta na saúde essencialmente em termos de tratamento e não em termos preventivos, e – isto é particularmente relevante – não aposta na literacia alimentar e nutricional com medidas de política alimentar e nutricional intencionalmente desenhadas para a sua população. Portanto, o que aconteceu em termos teóricos era previsível. Numa população com mais dinheiro, mais disponibilidade de oferta alimentar, porque as fronteiras estão abertas, isto seria expectável. Mas também lhe digo, segundo os estudos, chegados a este estadio de comportamento alimentar, se o país tiver a capacidade de apostar em políticas alimentares e nutricionais desenhadas para o perfil alimentar da população com uma forte aposta na melhoria dos conhecimentos, então conseguimos passar para um padrão de comportamentos alimentares saudáveis.



E como é que isso se faz?
Fazendo uma vigilância periódica dos hábitos alimentares da população para percebermos para onde vamos. Se nada fizermos, caminhamos para piorar o cenário dos hábitos alimentares e das doenças crónicas. Mas, se conseguirmos desenhar políticas efetivas para estas situações, conseguiremos melhorar os hábitos alimentares. Por isso é que uma lei de bases seria importantíssima, já que criaria a obrigatoriedade de o país ter uma estratégia nacional para promover hábitos alimentares saudáveis. O que passa pelas escolas, pelos idosos e por avaliar que alimentos queremos para a nossa população e criar incentivos para a produção dos mesmos. É essencial olhar para a agricultura nacional e criar auxílios e incentivos aos agricultores consentâneos com as necessidades alimentares. É preciso olhar para a alimentação como um todo.



A EAT chamou a este relatório Comida do Antropoceno [período geológico em que a ação do homem começou a transformar o planeta]. Uma das grandes intervenções humanas foi na produção alimentar, sobretudo nos últimos séculos, com o processamento da comida. É possível reverter isto?
A chave para a questão será envolver a indústria alimentar. Não devemos nunca diabolizar a indústria alimentar e apontar-lhe o dedo como sendo a má da fita, até porque temos que olhar para isto como um processo que a humanidade tem atravessado. A indústria tem sido um grande aliado ao disponibilizar uma maior variedade de alimentos à população, mas é preciso que não seja parte do problema, mas sim parte da solução.



Árdua tarefa, não?
Não tem que ser. Isto não é ser lírico, nem utópico. É possível, e fundamental, utilizarmos o know how da indústria alimentar, que é muito, para providenciar que os produtos nas prateleiras dos supermercados sejam mais saudáveis.



O processamento dos alimentos não é necessariamente mau?
Claro que não. Se o processamento transforma uma matéria-prima interessante num produto final desinteressante em termos de saúde, é mau. Mas quando a indústria alimentar pega num alimento e o transforma no sentido de alongar o seu prazo de validade e o tornar disponível e acessível é bom. Portanto, não diabolizar a indústria alimentar, mas sim utilizar o seu potencial de conhecimento e de capacidade de colocação de produtos nas prateleiras, de forma a que seja parte da solução e não parte do problema.



Fazer esta ementa com base nas recomendações da EAT Comission e da Lancet foi muito difícil?
Foi um desafio.



Este relatório procura criar um modelo alimentar que articule a saúde com a sustentabilidade ambiental. Este é um grande desafio do futuro neste campo?
Sem dúvida. E dão bem a mão. Temos que pensar em simultâneo que a população deve ter acesso a alimentos que suficientes e de qualidade para uma dieta equilibrada, mas sem que isso belisque a sustentabilidade do planeta nem ponha em causa o acesso de todos os seres humanos à alimentação. É essencial assegurar alimentos de qualidade e em quantidade suficiente para todos os indivíduos que habitam o planeta, garantindo a sua sustentabilidade presente e futura.



Mas a sustentabilidade do planeta implica, mais do que a responsabilidade individual, a responsabilidade social e ação das empresas da indústria alimentar e da agrícola, que muitas vezes não existe porque o objetivo maior é o lucro.
Sem dúvida. E vamos ao mesmo. Ou temos consciência e responsabilidade individual e coletiva ou são os Estados que têm que fazer as regras. Não há nada melhor do que medidas estipuladas pelos próprios, que nascem de dentro, da tomada de consciência individual e coletiva, mas, quando tal não acontece, há que criar regras e depois fazê-las cumprir e punir quem não as cumpre. É isso que esperamos dos Estados.



O Estado português tem falhado na oferta alimentar nas escolas públicas portuguesas?
A Ordem dos Nutricionistas apresentou há um ano uma proposta ao Ministério da Educação com aquilo que é o nosso olhar sobre que deveria ser a alimentação nas escolas.



E qual é?
Por um lado, entendemos que as escolas devem ter nutricionista e propusemos trinta nutricionistas para todo o país, o que obviamente não é excessivo Como imaginamos que a alimentação nas escolas deve ser? Desde logo, deve ser saudável, saborosa, sustentável e equilibrada – princípios que devem ser respeitados na cantina, no buffet, no bar e nas máquinas de venda automática, quando existem. E deve ser ainda considerado o espaço circundante da escola. Dentro da mesma deve trabalhar-se para uma cultura alimentar saudável, o que só se consegue trabalhando com os alunos, com os professores, com toda a comunidade educativa e também com os pais. Enquanto a educação alimentar e os hábitos alimentares das nossas crianças não se tornarem prioritárias, não conseguimos mudar nada. De resto, devo dizer-lhe que o modelo da alimentação escolar em Portugal tem traços muito interessantes. Nem todos os países têm alimentação gratuita ou subsidiada. Só isto é de mérito. Para além disso, temos o leite escolar, que é gratuito, embora eu ache que já era altura de não ter chocolate, porque se tem chocolate tem açúcar. E ainda temos o regime da fruta escolar. Temos um conjunto de referenciais que dizem o que a escola deve ter como oferta alimentar e que são de mérito. Mas ainda assim a realidade alimentar não é a que desejamos – saudável e sustentável. Foi neste sentido que a Ordem apresentou uma proposta de modelo de alimentação escolar ao ministério da Educação.



E qual foi a resposta?
Até ao momento nenhuma.



Texto de Catarina Pires | Fotografia de Adelino Meireles/Global Imagens | Infografia de Lília Gomes

Fonte: DNLife, online, 10 de fevereiro de 2019