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Alimentação saudável tem de estar no sumário

Alimentação saudável tem de estar no sumário
14 de Setembro de 2021

A limitação de alimentos com excesso de açúcar, sal e gorduras nas escolas deverá ser apenas a ponta do iceberg e estabelecer-se como uma medida de uma série de outras que devem olhar para a alimentação das nossas crianças como um todo. Mas, como fazer este caminho com apenas dois (sim, dois) nutricionistas em todo o Ministério da Educação?



O António está de regresso às aulas. Um regresso às aulas que não poderá deixar ser considerado sui generis, pela continua presença das máscaras na sala de aula e pelo gel desinfetante em riste, mas, do mesmo modo, um regresso às aulas muito aguardado, após meses de confinamento e telescola.


Como muitos dos restantes colegas, o António passou os últimos meses em casa, a mexer-se menos e a comer pior. Um doce aqui, um gadget acolá acabou por se traduzir num largo período de agravamento do excesso de peso que, não esqueçamos, em crianças e adultos é significativo fator de risco para doenças crónicas e graves como a obesidade ou a diabetes.


Na escola pública (e na privada também) espera-se que o ensino vá para além dos livros escolares, que fuja à regra da tabuada cantada e que decorar só para passar já não exista mais. Espera-se que a escola seja um local de promoção da cidadania, do respeito entre pares, da igualdade, da educação ambiental também e da educação para a saúde evidentemente, nomeadamente no que às questões da alimentação saudável diz respeito.


É, por isso, de aplaudir e não de estranhar que, recentemente, tenhamos visto bolas de Berlim, pães com chouriço, batatas fritas ou refrigerantes banidos dos bufetes e das máquinas de venda automática nas escolas públicas. Sabendo, aliás, que os hábitos alimentares inadequados são um dos principais motivos para muitas das doenças da população portuguesa, até o António é capaz de reconhecer que não fazia sentido que na sua escola pudesse comprar alimentos que, ingeridos com frequência, é certo e sabido impactarem a sua qualidade de vida


No entanto, sabemo-lo, a promoção de hábitos alimentares saudáveis não se esgota com a proibição da venda de determinados produtos nas escolas, uma vez que o António não deixou de ser livre de levar de casa aquilo que lhe apeteça (e que os pais permitam) ou de comprar um hambúrguer no segundo quarteirão. E ainda bem que há esta liberdade. Que todos tenhamos sempre a liberdade de fazer as nossas escolhas, mas que estas possam ser informadas e conscientes. E é aqui que reside a questão. A limitação destes alimentos com excesso de açúcar, sal e gorduras nas escolas deverá ser apenas a ponta do iceberg e estabelecer-se como uma medida de uma série de outras que devem olhar para a alimentação das nossas crianças como um todo, e promover uma escolha consciente de certos alimentos em detrimento de outros. A aposta na literacia alimentar em todos os ciclos de ensino tem, por isso, de ser o cerne desta questão.


Depois deste importante passo em nome da criação de um ambiente escolar mais salutogénico, que oferece melhores alternativas e opções saudáveis aos seus alunos, está na hora de avançar com uma estratégia que se quer consertada e que promova, em todos os âmbitos, a alimentação saudável.


Mas, como fazer este caminho com apenas dois (sim, dois) nutricionistas em todo o Ministério da Educação?



É, tempo de exigir mais e melhor aos nossos governantes em nome da verdadeira promoção da saúde e robusta prevenção da doença, e, hoje mais que nunca, de exigir celeridade na tomada de decisões, cujo atraso continua a impactar tão severamente a vida de todos


É, acima de tudo, tempo de exigir mais e melhor aos nossos governantes em nome da verdadeira promoção da saúde e robusta prevenção da doença, e, hoje mais que nunca, de exigir celeridade na tomada de decisões, cujo atraso continua a impactar tão severamente a vida de todos os Antónios de Portugal.




Alexandra Bento, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas



Fonte: Público, online, 14 de setembro de 2021