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´Comer bem é um excelente remédio´

´Comer bem é um excelente remédio´
20 de Setembro de 2021

A pandemia acentuou a degradação dos hábitos alimentares e urge adotar medidas públicas para promover a alimentação saudável dos portugueses. Esta visão é defendida por Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, que partilha ainda conselhos alimentares, «simples, mas eficientes», para a semana de trabalho dos contabilistas certificados. 




Contabilista – Agora que o verão se aproxima do fim, já se começa a notar um aumento do número de portugueses em consultas de nutrição? 

Alexandra Bento – Para já, não disponho de dados concretos, a nível nacional, sobre o que me pergunta. Para além disso, os consultórios de nutrição também têm dinâmicas próprias, em função da área de especialização do profissional e da localização geográfica. Relativamente ao período pandémico que vivemos, há mais de 15 meses, alguns deles em pleno confinamento, já dispomos de dados mais sólidos. 


Contabilista – E durante esse período, os portugueses melhoraram ou pioraram a sua qualidade nutricional? 

A.B. – Um estudo da Direção-Geral da Saúde (DGS) do ano passado, a que se deu o nome “REACT COVID”, procurou aferir o impacto da pandemia e do confinamento nos hábitos alimentares da população. E a principal conclusão é que quase metade da população alterou os seus hábitos para pior, podendo-se justificar com fatores de ordem económica e social, nomeadamente a enorme incerteza gerada quanto ao futuro. Entretanto, esperamos que, previsivelmente no final do mês de setembro, sejam divulgados os dados do estudo feito este ano e que já incluem o segundo confinamento. 



AB OCC 01

Contabilista – Admite que a tendência de degradação dos hábitos alimentares se tenha mantido? 

A.B. – É o mais provável. Inclusive acredito mesmo que se acentue essa degradação. 


Contabilista – Em que medida é que a situação de pobreza e desemprego acentuou as situações de carência nutricional ou o recurso da população a soluções nutricionais mais pobres ou insuficientes? 

A.B. – Em Portugal coexistem um conjunto de circunstâncias diferentes, na medida em que a nossa população é diversa. Temos claramente desigualdades económicas e sociais e para aqueles que vivenciam este tipo de precariedade há portugueses que têm dificuldades de acesso a alimentos para terem as suas refeições condignas. Por outro lado, também há uma parte da população que tem uma alimentação verdadeiramente desequilibrada. E isto não é necessariamente devido a problemas económicos, mas porventura têm falta de literacia alimentar e nutricional para fazer as escolhas que sejam oportunas e adequadas. E também há os portugueses que não têm problemas económicos e até têm uma apreciável literacia alimentar, mas que, por opção própria, rejeitam seguir uma alimentação saudável e sustentável. 




Contabilista – Perante um país tão diverso como é que se procura, dentro das possibilidades, alcançar um ponto de equilíbrio? 


A.B. – Creio que é imperioso assegurar que, todo e qualquer indivíduo, tenha acesso económico e físico a alimentos que sejam suficientes em quantidade e qualidade para ter uma alimentação saudável. Por outro lado, é necessário aumentar a consciencialização pública para os benefícios de uma alimentação saudável e propiciar os instrumentos adequados para que as pessoas queiram alimentar-se corretamente. 


Contabilista – Nesse sentido, defende a implementação de medidas concretas e de campanhas de sensibilização? 

A.B. – Sim, mas creio que devemos começar pelo contexto laboral. Por exemplo, uma pessoa que tem todas as condições económicas e conhecimento, trabalha num local que não dispõe de uma cantina ou de um bar e se o tiver não existe uma oferta saudável. No fundo, está rodeado de um deserto alimentar saudável. É preciso facilitar uma oferta alimentar saudável, tanto no trabalho, como em redor do local. Se não existir este clima facilitador e houver no meu local de trabalho uma máquina de venda automática repleta de produtos saborosos, mas que são tudo menos saudáveis, é muito provável que se escolha estas opções. 


Contabilista – Mas são cada vez mais as empresas que se esforçam para equiparem os locais no trabalho com condições para que seja possível fazer refeições rápidas…. 

A.B. – Sem dúvida. Basta uma pequena copa, apetrechada com as condições mínimas, para gerar uma cultura no local de trabalho que promova a saúde e facilite a decisão de escolher o que é saudável. O empregador deve perceber que a saúde do seu colaborador é importante. Um colaborador mais saudável é mais feliz, rende mais e tem menos problemas de absentismo. 


Contabilista – Recentemente, o Ministério da Educação baniu mais de 50 alimentos, considerados não saudáveis, das cantinas escolas. Bem sabemos que o ensinar dá frutos muito tempo depois, mas não se está a cair no excesso quando o único caminho é proibir, insistindo-se em medidas avulsas? 

A.B. – Creio que dizer que se proíbe na escola o consumo de determinados alimentos peca por excessivo. O Ministério da Educação está a procurar dar o exemplo, naquilo que disponibiliza, tanto nos bufetes, como nas máquinas de venda automática. O que a escola está a fazer neste momento é assegurar que os produtos que são vendidos nos estabelecimentos de ensino são, garantidamente, importantes para a saúde e oferta alimentar saudável. Não se diz, expressamente, que se os pais quiserem é proibido que a criança leve na sua lancheira produtos pouco saudáveis ou que esta os compre no café ao lado da escola. 


AB OCC 02


Contabilista – Apesar de elogiar estas medidas do Ministério, considera que falta articulação na ação… 

A.B. – É fundamental, através do lançamento de um conjunto articulado de medidas, aumentar as competências dos nossos alunos para que estes possam escolher de forma mais saudável, mas proibir sem explicar e sem contextualizar pode não ser bem compreendido por parte dos nossos alunos. Portugal precisa de uma verdadeira estratégia de promoção da alimentação saudável. 


Contabilista – Introduzir aulas de educação alimentar nos currículos das escolas seria um caminho a seguir? 

A.B. – Sem dúvida. Era uma oportunidade única para promover a alimentação saudável em todos os ciclos de ensino e também nas universidades. Bem sei que os frutos da educação não são imediatos e apenas seriam colhidos mais tarde, mas chegariam, certamente. Mas, como em tudo na vida, é preciso vontade e não é só política. Infelizmente, nesta como noutras matérias, apenas vamos querendo, quando devíamos querer, verdadeiramente. 


Contabilista – O Ministério da Educação só tem dois nutricionistas para todas as escolas. Perante esta realidade, é viável fazer omeletas sem ovos? 

A.B. – Portugal é um país que aposta na formação de nutricionistas, profissionais que são reconhecidos nacional e internacionalmente, mas não os mobiliza em número suficiente, para os locais onde estes deviam estar, a bem da saúde dos portugueses. Os centros de saúde e as escolas são espaços, por excelência, de promoção da saúde e prevenção da doença. Por isso, é um erro tratar a causa alimentar nas escolas sem o contributo de nutricionistas. Não é por isso de estranhar que a oferta alimentar nas escolas não seja a desejada. Associada com os novos hábitos alimentares temos a questão do excesso de peso nas nossas crianças. 12 por cento das crianças portuguesas têm obesidade. E a obesidade é doença crónica. E uma em três crianças têm excesso de peso, o que é fator de risco para muitas doenças, entre as quais se salienta a diabetes. 


AB OCC 03

Contabilista – A obesidade pode ser uma espécie de outra pandemia? 

A.B. – Claramente. E os portugueses, com a pandemia de Covid-19 perceberam o que é uma doença epidémica à escala mundial. É um problema global e que também afeta Portugal, em grande dimensão. E existindo carência dos nutricionistas em situações essenciais, é evidente que não é positivo pensar, sequer, em reduzir este problema. Algo falha. 


Contabilista - Em 2018, em artigo no “Público”, escreveu que «a saúde não pode ser uma folha de Excel». Continua a ser assim? 

A.B. – Às vezes, mais parece. Mas é uma folha de Excel com erros de cálculo pelo meio que estão a ser mal percebidos. A importância da alimentação é tão grande para a nossa saúde que a promoção de hábitos alimentares saudáveis contribuirá para diminuir a fatura da saúde. Ou seja, os benefícios são duplos: na saúde da pessoa e na redução da despesa para o próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS). Está nas nossas mãos despertarmos os nossos governantes para a ação. 


Contabilista - Mas as entidades públicas não têm feito um esforço para colocar estes temas em agenda? 

A.B. – Não me canso de exprimir que as medidas públicas para melhorar os hábitos alimentares precisam de mais ritmo e intensidade, mas também é preciso reconhecer, com toda a frontalidade: hoje, faz-se mais do que no passado. Anteriormente, estas questões estavam completamente arredadas da agenda política e pública. Atualmente, com frequência, estes assuntos são alvo de discussão em vários órgãos de comunicação social, há um conjunto de projetos de resolução na Assembleia da República e também temos o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável que surgiu em 2012, etc. 


Contabilista – Tem havido progressos ao nível da literacia alimentar e nutricional dos portugueses? 

A.B. – Há uma conclusão relativamente recente que indica que cerca de 40 por cento dos portugueses têm muita dificuldade em compreender a rotulagem nutricional dos alimentos ou dos produtos alimentares. É um dado que nos deve preocupar porque, em boa medida, é da compreensão da composição dos alimentos que depende a comparabilidade entre produtos e o conseguir fazer escolhas mais adequadas e saudáveis para a nossa alimentação. Está em curso uma discussão no universo académico e também nos fóruns de decisão relativamente à adoção de um esquema de rotulagem nutricional de caráter interpretativo. Isto já existe, por orientação dos respetivos governos, em Espanha, França e Bélgica, por exemplo e estou em crer que o nosso governo pode vir a seguir este rumo. O debate já é alargado e a Comissão Europeia poderá apresentar algum normativo neste sentido. Seria uma forma de as políticas públicas estarem ao serviço dos consumidores para melhorar o alcance das suas escolhas. 


Contabilista – Admite que a indústria alimentar pode exercer algum tipo de pressão junto das altas esferas políticas para evitar ou atrasar a introdução de formas mais transparentes de rotulagem nutricional? 

A.B. – A indústria alimentar pode e deve ser um parceiro nestas questões. Quase me atrevia a dizer que a indústria alimentar está recetiva a colaborar, mas para que isso aconteça, o Estado, nomeadamente o governo e a Assembleia da República, têm de ser os motores da ação, no sentido de mobilizar os parceiros, como é o caso da indústria alimentar. Só a partir daqui é possível, articuladamente, lançar um conjunto de medidas que possam ser colocadas em prática. 


Contabilista – Quer dar um exemplo concreto? 

A.B. – Por exemplo, o nosso governo, via Ministério da Saúde, devia trabalhar com mais celeridade com a indústria alimentar para que se produza um consenso sobre o esquema interpretativo que deve figurar nos produtos alimentares em Portugal. Quem fala nesta questão, podia falar noutras. Por exemplo, a taxação de alguns alimentos que abonam menos para a nossa saúde. A taxação do açúcar nos refrigerantes foi uma medida muito interessante – inclusive a indústria alimentar reformulou muitos dos seus produtos, reduzindo-lhes o açúcar, para pagarem menos impostos - e diz-nos a evidência científica que deve ser uma prática para avançar. Mexer na política de preços é algo com muitas virtudes porque o preço é um dos critérios para a aquisição de alimentos e revela-se, também, uma forma muito eficaz de dissuadir a aquisição e consumo de produtos alimentares menos saudáveis e que são potenciadores de certas doenças. 


Contabilista – Que outros produtos e alimentos podiam ser taxados numa lógica preventiva? 

A.B. – Se me permite, respondo com uma pergunta: qual foi o motivo que levou a que a taxação do excesso de sal em determinados alimentos não tivesse avançado como aconteceu com a taxação do açúcar nos refrigerantes? Esta medida esteve em debate no Parlamento e os senhores deputados acabaram por inviabilizar a sua aprovação. Não é compreensível que se tenha aprovado uma e chumbado a outra, ainda para mais quando o sal é claramente um dos grandes problemas de saúde pública no nosso país. Os portugueses não deviam consumir mais de 5 gramas de sal por dia e o que acontece é que se ingere praticamente o dobro. 


AB OCC 04

Contabilista – Os leitores desta revista são contabilistas certificados. Profissionais que acumulam oito ou mais horas diárias ao computador e cultivam, maioritariamente, um estilo de vida sedentário. Que padrão alimentar aconselha para uma semana de trabalho? 

A.B. – Para começar, a profissão de contabilista é muito exigente. Muitos deles são profissionais liberais, alguns deles trabalham completamente isolados, outros inseridos em grandes organizações, mas com todo o esforço e rigor que este trabalho exige e o número de horas que despendem em frente ao computador. Sobre os conselhos propriamente ditos, dou alguns, simples, mas que podem ser eficientes: os portugueses, em geral, têm um consumo muito insuficiente de frutas e de hortícolas, essenciais para a nossa vida. Por isso, os contabilistas não serão exceção. Depois de um bom pequeno-almoço, deve ser feita uma pausa de cinco minutos a meio da manhã ou a meio da tarde para comer uma peça de fruta e mais qualquer coisa. Será extraordinariamente importante para o resto do dia de trabalho e para a saúde. Às refeições nunca esquecer o papel da sopa e uma quantidade abundante de legumes no prato. Importa não descurar a questão do sal. Retirem o saleiro da mesa e na confeção prefiram as ervas aromáticas ou as especiarias. É uma forma de prevenir os problemas cardiovasculares. Já basta a vida sedentária que têm. 


Contabilista – Algum outro conselho que julgue pertinente? 

A.B. – Fazer vigilância do peso. Ter uma balança sempre por perto, por exemplo, na casa de banho. Isto porque se o peso for vigiado de uma forma rotineira ele não aumenta, nem diminui meia dúzia de quilos de uma vez só. 


Contabilista – Já agora, como nutricionista, é defensora do popularmente denominado «dia da asneira», coincidindo, por exemplo, com uma celebração? 

A.B. – Não gosto do conceito de «dia da asneira», porque num dia festivo nós não estamos a fazer asneira. Se numa determinada ocasião, comermos os bolos que gostamos ou brindarmos com um copo de bom vinho, não considero que seja uma asneira. É antes aproveitar o melhor da vida com conta, peso e medida. 


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Contabilista – Como analisa as novas tendências e modas, como é o caso do veganismo, a dieta Paleo ou o jejum intermitente. Podem ser práticas perigosas sem orientação especializada? 

A.B. – Os nutricionistas existem para aconselharem as pessoas que necessitam de todo e qualquer auxílio para uma correta organização da sua alimentação. É muito perigoso embarcarmos em novas tendências alimentares que não tenham sustentação científica. Portanto, perante o conjunto de tendências – novas, tão variadas e algumas delas perigosas – o único conselho que posso dar é: se tem dúvidas, consulte um nutricionista. 


Contabilista – “Somos aquilo que comemos” é uma frase repetida. Em 2017, escreveu o livro “Comer bem é o melhor remédio”. Este é o seu lema enquanto nutricionista? 

A.B. – Claramente, porque é uma frase que aglutina aquilo que é o meu pensamento em torno da alimentação e da nutrição. Comer bem é um excelente remédio para nos acautelarmos de muitas imprudências e sobressaltos que poderão surgir ao longo da nossa vida. É verdade que “somos aquilo que comemos”, mas muitas vezes também comemos aquilo que somos, ou seja, fruto das nossas vivências, da nossa cultura, da nossa literacia e da nossa condição económica.




Entrevista Nuno Dias da Silva | Fotos José Sérgio 

Fonte: Contabilista, revista da Ordem dos Contabilistas Certificados, n.º 257, Agosto de 2021