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Obesidade: pandemia de peso

Obesidade: pandemia de peso
23 de Maio de 2020

Há cinco anos, um em cada quatro portugueses tinha obesidade. E agora, quantos serão? Não sabemos.


Para além da obesidade, um em cada três portugueses tinha excesso de peso. Tudo somado, mais de metade da população estava acima do peso considerado normal. A prevalência é maior no sexo feminino e de magnitude bastante superior nos mais idosos, naqueles com menor nível de escolaridade e com pior situação económica.



Mas, na atualidade, discute-se também a relação entre a obesidade e a nova pandemia da COVID-19. Vários estudos têm vindo a demonstrar que a obesidade pode ser um fator de risco para as pessoas infetadas pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, parecendo haver uma relação importante entre as formas mais graves de infeção por este vírus e esta outra doença pandémica, de alta prevalência na maioria dos países, como é o caso de Portugal.


Apesar de não termos dados recentes sobre a obesidade em Portugal, podemos admitir que, nos últimos anos, a sua prevalência terá baixado, visto que a situação económica do país melhorou. De facto, a obesidade e a vulnerabilidade económica progridem em paralelo. Ao mesmo tempo, algumas medidas de combate a esta pandemia foram desencadeadas. Só dispomos de dados recentes relativos à obesidade infantil, através do estudo COSI, que parecem corroborar a ideia de uma melhoria.


E agora? Como vai evoluir o peso dos portugueses? Não sabemos.


Podemos, no entanto, inferir que piorou ou vai piorar, pois espera-nos uma recessão económica e os serviços de saúde estão largamente focados no combate ao novo coronavírus, o que obrigou a uma reorganização dos hospitais e centros de saúde, passando nomeadamente pelo adiamento de consultas e pela suspensão de programas de intervenção na comunidade.


Numa pandemia como a que estamos a viver era impossível manter toda a atividade normal e responder aos doentes com COVID-19, no Serviço Nacional de Saúde. Mas, no momento atual, é essencial retomar – e intensificar! –​ os cuidados a todas as outras doenças, incluindo a obesidade.


Acrescem as preocupações. As medidas de isolamento social impostas nos últimos meses, apesar de evidentemente necessárias, podem ter sido mais uma causa de agravamento da situação para esse grupo de pessoas, porque terão diminuído a atividade física e porque, plausivelmente, dadas as dificuldades económicas, terão deteriorado os seus hábitos alimentares. Não nos esqueçamos que a magnitude desta doença é superior entre aqueles que gozam de pior condição económica.

Ora, se era importante sabermos a dimensão da obesidade antes desta nova pandemia, parece evidente ser urgente estudarmos a sua prevalência na atualidade, identificando quais os grupos populacionais mais afetados. E se era importante combater esta doença, também pandémica, antes deste novo vírus, é também evidente que temos que “arregaçar as mangas” e sermos capazes de intensificar a sua prevenção e o seu tratamento.


O número de nutricionistas nos serviços públicos de saúde é uma vergonha. O Estado aposta na formação de nutricionistas, mas não os aproveita a bem da saúde da população



A boa notícia é que a obesidade é largamente prevenível através da adoção de estilos de vida saudáveis, hábitos alimentares equilibrados e a prática regular de atividade física. É imperioso que todos os portugueses possam, saibam e queiram comer bem, sem renunciar ao prazer e à liberdade individual. Este é o melhor remédio!


Mas, paradoxalmente, a má notícia é que prevenir este excesso de peso exige várias medidas.


Ciente disto, a Organização Mundial da Saúde tem apelado aos governos para que implementem políticas integradas que promovam a ingestão de alimentos saudáveis, em detrimento daqueles com elevada densidade calórica e baixa densidade nutricional, a par da prática de atividade física, numa conjugação de medidas envolvendo múltiplos setores.


Portugal encetou este caminho em 2005, com o Programa Nacional de Combate à Obesidade, continuado, em 2007, com a Plataforma Contra a Obesidade e, desde 2012, com o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável.


Nestes 15 anos temos assistido ao desenhar de várias medidas, mas faltam atores para as levar a cabo. Faltam sobretudo nutricionistas. Não será com os pouco mais de 100 que trabalham nos centros de saúde que se pode combater esta doença. E nem o acréscimo dos 40 que virão do concurso que se arrasta desde 2018 chegará para as encomendas. De facto, só no que diz respeito a intervenção no excesso de peso, para evitar que venham a ser doentes, teremos que atuar junto de 3,5 milhões de portugueses. Não o esqueçamos: obesidade é doença e grave!


Mas, em simultâneo com a ação preventiva, é necessário tratar aqueles que padecem da doença. E para isso os serviços de saúde têm que ter equipas multidisciplinares dedicadas, com particular destaque para os nutricionistas. Não será com os cerca de 300 nutricionistas dos hospitais públicos que o conseguiremos.


O número de nutricionistas nos serviços públicos de saúde é uma vergonha. O Estado aposta na formação de nutricionistas, mas não os aproveita a bem da saúde da população.


O vírus desta pandemia causa morte. A obesidade também, uma morte lenta e silenciosa, potenciando ainda a morte por outras causas.


Se o Estado conseguiu estruturar uma resposta à atual pandemia, com os cidadãos a corresponderam com cumprimento e prontidão e os profissionais de saúde com um extraordinário desempenho e dedicação, todos estaremos certamente à altura para o combate desta outra pandemia, a obesidade.


Os nutricionistas podem não ser a panaceia para a obesidade. Mas podem dar um contributo, precioso e insubstituível. Em nome da saúde dos portugueses, o Estado tem que contar com eles.



Alexandra Bento,

Bastonária da Ordem dos Nutricionistas




Fonte: Público, edição online, 23 de maio de 2020